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Segunda Fuga
Márcio Simeone

Cheguei ao fim da tarde na velha aldeia de minha infância. Retorno de longo autoexílio imposto na esperança de deixar velhos mundos para trás e conquistar o que nunca tive às mãos e nem sob os pés. Da meninice, não tenho só doces lembranças, mas a praia lá está. Uma povoação mais encorpada, já acostumada a turistas, estes a que antes chamávamos apenas forasteiros. Agora chegam em bandos e me misturei a eles. Mais como forasteiro, a olhar para o lugar com os estranhamentos das memórias de mármore, sem reconhecer muito. A vila de pescadores ainda lá sobrevive, acuada no canto sul, junto à barra do rio. Lá estarão parentes e amigos, com certeza, nova geração de gente que ali se quedou. Não sei se amarrados às condições das marés e do ofício da pesca, ou livres, por isso mesmo. Não sei calcular as liberdades de cada qual. Longo tempo faz desaprender o que é simples, se estamos dedicados aos grandes sistemas que regem a vida urbana. Limitei-me a olhar de longe, da outra ponta, a vista privilegiada, até que anoiteceu. Com tristeza vi que o pequeno farol, na colina que domina a barra do rio, não funciona mais. Com ele contava para me trazer a familiaridade das noites em que adormecia vendo os fachos de sua luz cruzando o céu.
A pequena vila era um presépio iluminado. Ao longo de toda a noite. Não como outrora, em que um pequeno gerador fornecia luz elétrica até as nove em ponto. Só não mergulhávamos na profunda escuridão pelo trabalho do farol. Vida perfeitamente fatiada: antes e depois das nove. Ao raiar do dia, despertei de um sono que não tive para ver o que se passava. Ainda de longe vi que os barcos haviam partido para a função. Isso acalmou meu coração, ver que o dia se conservava assim, tão cotidiano. Era certo que mais tarde a rotina despejaria a pesca na praia e seria bom momento para aparecer; e, assim, me dirigi resoluto à aldeia. Porém, custou-me chegar mais perto. Decidi só olhar, assim como outros turistas, o que se passava ali e ver a tarde bonita descansar no mar. Apesar da cena, tão familiar, vi à minha frente um abismo. Nem saberia mais quem eram meus parentes e meus amigos, após muitos e muitos anos sem nenhum contato, nenhuma notícia. Cortara da minha vida aquele pedaço, numa fuga cega. Recuei. Não tinha esperanças de cruzar aquele abismo.
Foi então que desisti e voltei para o meu mundo, o que eu mesmo havia construído. Lá vivi muitos anos com minha amada companheira, edifiquei minha carreira, recém-encerrada. Não havia em mim nem mais um traço da vida comunitária e pouco ficara em meu repertório sobre o funcionamento das coisas em lugares que não o meu próprio.
Eu me apossei dele com tanta gana e afinco, que me sobrou apenas o turismo, que lá onde vivo é cultuado com um fervor quase religioso e oferece mistérios e maravilhas a desvendar. Esta foi a minha segunda fuga. E para o mesmo lugar movimentado, colorido, mutável e viciante, onde as notícias do futuro são preferíveis às do passado.
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